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Elizabeth Abrantes
Elizabeth Abrantes
2 anos atrás

Olá Pâmela, parabenizo você e sua orientadora pela importante pesquisa sobre a questão agrária e camponesa no Maranhão, com destaque para o aspecto da migração. Gostaria que você explicasse um pouco mais sobre as possibilidades metodológicas do uso de filmes, como Bandeiras Verdes, do cineasta Murilo Santos, como recurso didático em sala de aula, especialmente para a história contemporânea do Maranhão.

Curso
História
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Interno
Pamella Ferreira Paiva
Pamella Ferreira Paiva
Responder para  Elizabeth Abrantes
2 anos atrás

A utilização do cinema na sala de aula ainda é pouco familiar e extremamente recente, causando estranhamento ao pesquisador/professor, principalmente da área de História que apenas recentemente vêm diversificando suas fontes. A linha tênue entre a representação, a ficção e a realidade traz certos desafios quando se trata em trazer conteúdos cinematográficos para dentro da sala de aula, principalmente quando estamos falando da matéria “História”.

Primeiramente, encontramos na proposição da pesquisadora Rose Gillian (2001) uma maneira de tratarmos da obra no campo da sala de aula. A sua “metodologia visual crítica” sugere que os estudantes tracem correlações socioculturais da obra para com o contexto vivido por eles mesmos de maneira crítica, “thinking about the power relations that produce, are articulated through, and can be challenged by, ways of seeing and imagining” (GILLIAN, 2001, p.03). Tendo isso em mente, a proximidade geográfica e social trazida dentro da obra Bandeiras Verdes (1988) traz a oportunidade de desconstruir pre noções sobre a luta campesina e as migrações  de trabalhadores rurais dentro do próprio estado do Maranhão feita por estudantes maranhenses.

Pensamos também a partir da proposição feita pela pesquisadora Adriana Fresquet (2020), que, sugere o ensino a partir da experiência da alteridade, fazendo com que, combinado com o método da pesquisadora Rose Gillian (2001), além de trazer a obra para o contexto sociocultural dos alunos, os mesmos tentem colocar-se no lugar do próprio objeto estudado, fazendo com que a reflexão a partir desse ponto mais pessoal faça surgir o “incomodo” dentro da sala de aula, palco para discussões e debates mais focados quando atinge-se esse ponto, porém, “isto não significa uma proposta disciplinar para a afetividade” (FRESQUET, 2020, n.p).

Ainda no campo da alteridade Cezar e Ivo (2016) afirmam que os estudantes não necessariamente devem interferir com o produto em si ou na imagem em si, mas devem “entrar nas decisões criativas que forjaram e nos possíveis daquela imagem” (MIGLIORIN; BARROSO, 2016, p. 20) e fazer com que, o estudante, ao alocar-se nessa experiencia sensível de se situar no lugar do criador, aprenda de uma maneira diferenciada sobre a criação em si. O exercício da alteridade dentro do campo de cinema-educação, só é possível graças a uma característica muito peculiar encontrada nessas obras fílmicas, que é a possibilidade da criação de laços de identificação, onde essa interação perceptiva é única.

Ou seja, para tratarmos de cinema, devemos sempre levar em conta os processos formadores, sejam eles culturais, sociais ou educacionais. Ou seja, “o cinema assim como a educação, podem ser considerados instrumentos de socialização, portanto mediadores do desenvolvimento humano e das relações humanas.” (PIOVESAN; BARBOSA; COSTA, 2010, p. 04)

O trabalho de reflexão crítica sobre a história e a memória da questão agrária maranhense é assunto de suma importância a ser inserido dentro do ambiente escolar, e o tratamento do assunto a partir do uso de imagens e sons proporciona uma boa maneira de apresentar a história do estado para esses jovens tendo em vista as questões apontadas anteriormente. o uso responsável e crítico seria a chave para um trabalho bem-sucedido com a fonte.

O cinegrafista responsável pela obra, Murilo Santos, foi parte intrínseca da história da cinematografia maranhense, tornando-se figura de grande destaque da época fazendo parte das engrenagens do movimento nos anos 1970 e 1980. O recorte histórico de uma obra fílmica se faz essencial para se compreender o porquê de esta obra ser relevante para o estudo do campo maranhense contemporâneo. Concluímos que a época na qual fora situada a produção coincide com um período no qual existiu um forte movimento de expropriação de terras, grilagem e conflitos de terra na região pré-amazônica do Maranhão – e no estado em geral -, onde iniciam-se os “grandes projetos” que envolviam, por exemplo, a construção da Estrada de Carajás através do Programa Grande Carajás (PGC). Essas movimentações causaram grandes conflitos entre camponeses, grileiros e latifundiários, fazendo com que desde esta época – as décadas de 1970 e 1980 – a tensão e violência deixassem sua marca no campo maranhense, que, infelizmente perdura até os dias de hoje.

Essa produção é de suma importância, pois, serve como registro das consequências desses “grandes projetos” para os campesinos de regiões conflituosas, através das lentes de câmera de uma pessoa que se inseriu nesse meio por um relevante recorte temporal – aproximadamente dez anos – aproximando-se o máximo possível desse ambiente – característica forte presente em boa parte de suas obras documentais– e registrando pessoalmente os diferentes aspectos do dia a dia dos camponeses, registrando em câmera esse recorte histórico tão fundamental para a compreensão dos desdobramentos da área campesina maranhense.

O campo maranhense foi amplamente afetado nas décadas de 1970 e 1980, devido a promulgação da Lei n° 2.979, de 17 de julho de 1969 – também conhecida como “Lei Sarney de Terras” -, que decretou a compra de terrenos como única forma legal de adquiri-los, o que seria mais um dos fatores para as migrações em massa que ocorreram nessas décadas, já que essa determinação no processo de aquisição de terras poderia ser agora facilmente forjada por grileiros e latifundiários. A utilização das obras de Murilo em sala de aula seria extremamente proveitosa, pois, o mesmo sempre disposto com grande envolvimento pessoal, propôs-se a registrar em diferentes locais, diversos aspectos da vida campesina maranhense nesse recorte temporal tão importante, que, mudou completamente as relações de poder e o fluxo migratório para diferentes regiões do Maranhão.

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